25 de out de 2011

desarrumar

Como se qualquer coisa no mundo estivesse arrumada.
Da vontade de viver uma história que não é a minha.
Dezembro de 2009: eu entre aniversário, Natal, Ano-Novo e vestibular, e outra pessoa, completamente desconhecida, na ponta de cima do continente, viajando por outro país. Aquelas paisagens que a gente vê sem nunca ter visto: uma estrada a perder de vista, no meio de qualquer lugar panorâmico, nada ao redor, ninguém além de ti, nenhum barulho além do carro.
É engraçado, e desalentador, pensar em como duas vidas, tão peculiares, distantes, diferentes e desconhecidas uma da outra, mas próximas nos anseios e crenças, podem simplesmente nunca se cruzar. Por descaprichos do destino, por desventuras, peças e artimanhas de que o mundo se vale para mostrar o infortúnio e a infelicidade de não se ter feito nada além de nascido em outro lugar. E uma infinidade dessas vidas continuam lá e cá, sem sequer imaginar a existência umas das outras. Eu tento adivinhar o que aconteceria se, por um acaso qualquer, elas se encontrassem um dia. A reação de cada pessoa, o desfecho, se estaria ali um divisor de águas ou só mais um fato corriqueiro - e talvez a gente nem percebesse.
Eu queria o poder de mudar isso. Fazer uma dança das cadeiras entre as pessoas e rearranjar todas elas e pôr lado a lado as que merecem estar lado a lado e o mais longe possível as que ficam melhor assim. Bagunçar o mundo. Mudar toda a gente de lugar. Acossar a mesmice. Sacudir as cabeças. Experimentar outra língua.
Eu bem queria.

24 de out de 2011

17 de out de 2011

qual a diferença

"Eu quis ficar ali o dia inteiro. A vida inteira."

"Mas eu vivi de incerteza nos últimos cinco anos, no que diz respeito a relacionamentos."

"Eu penso em ti o tempo todo desde o dia que eu fiquei sabendo que tu existe."


Notas de um pretenso diário incompleto e largado. Essa última consta aqui exatamente assim, entre aspas. Não é minha. Mas eu não sou capaz de afirmar que é verdadeira. Não sou capaz de afirmar quase nada em relação ao meu passado. Às vezes eu tenho impressão de que distorço tudo a bel prazer. Mas e por que não, também? Se nem toda lembrança é boa, qual o crime de fazê-las assim? Quero dizer, o presente é agora e o futuro sabe-se lá. No fim das contas, o passado acaba sendo o único que se pode mudar, ainda que de mentira.

12 de out de 2011

and the world comes tumbling down
hand in hand in a violent life
making love on the edge of a knife
and the world comes tumbling down
and it's hard for me to say
and it's hard for me to stay
i'm going down to be by myself
i'm going back for the good of my health
and there's one thing i couldn't do
sacrifice myself to you

i take my aim and i fake my words
i'm just your long time curse

9 de out de 2011

do meu tempo

Há dois minutos eram seis horas. Como é que pode passar tão rápido? Por que tem que passar tão rápido?
Eu poderia dividir minha vida em períodos que se alternam. Quando sobra tempo e eu não quero esse tempo, quando não sobra tempo e eu também não quero e quando não sobra tempo, mas eu queria (querer e sobrar tempo - ao mesmo tempo - é uma coisa meio improvável de acontecer à exceção das férias e do colégio).
Hoje eu tô na terceira e prefiro não sair dela, mas nem sempre. E a sensação de quando o tempo livre dói incomoda tanto quanto a de ver esse mesmo tempo escapar antes do que se gostaria. Como se o dia tivesse sido perdido - não fiz tudo o que eu gostaria de ter feito. Mas não é verdade. Fiz o que deu pra fazer, o que podia ter sido feito. E, teoricamente, isso deveria bastar, mas não basta.
Eu e meus relógios. Desde criança brigando com o tempo, ou porque é demais ou porque é pouco.
E, herança de mãe, a pontualidade sempre viciante.

vou passar quero ver volta aqui vem você


Overdose de Renato Russo com esse especial da mtv o dia todo. E fiquei me lembrando da época em que eu não passava sem ouvir Legião. Uma das tantas bandas que eu comecei a ouvir depois de descobrir algum cd perdido no armário lá em casa. E uma das tantas que acabaram saindo do meu ipod depois. Tenho ainda, acho, espero, a discografia no computador em Canela. Não sei por que a gente para de ouvir algumas bandas. Como se as coisas de que se gostava quando mais novo não fossem dignas de ser gostadas. O que faz todo o sentido, considerando a quantidade de coisas vergonhosas de que já se gostou em algum momento da vida. Mas, embora eu não ouça mais, Legião não entra nesse saco. Não tem uma letra ruim, não tem uma música chata. Dá pra enjoar de algumas com o tempo, mas por ter ouvido em excesso.
Provavelmente um terço das pessoas ama, um odeia e o outro é indiferente, mas entre esses todos acho que poucos entendem. Ou param pra pensar. Ou sei lá. Param pra ouvir. Teatro dos vampiros, eu sei, faroeste, pais e filhos, índios, há tempos, tempo perdido, metal contra as nuvens, será, dezesseis, sereníssima, quase sem querer, os anjos, meninos e meninas, vinte e nove, descobrimento, duas tribos, mais do mesmo, monte castelo, vamos fazer um filme, via láctea, giz. Todas. E mesmo as mais velhas, do Aborto Elétrico.
Em uma entrevista, de pés descalços, ele falava sobre como parou de ouvir todas as bandas que, depois, ficaram conhecidas e todo mundo ouvia. O fenômeno é antigo e não é crime, afinal. Mas o caso é que cada pessoa pode ter uma relação completamente diferente com a mesma banda, com a mesma música. Eu prefiro guardar Legião só pra mim, nesse sentido. Eu já disse uma vez, descobri o Renato e as letras dele exatamente quando precisei descobrir. E possivelmente parei de ouvir quando não precisei mais também. Mas isso não muda aquele quando e o que significou. Justamente o momento em que eu comecei a aprender a me salvar sozinha. Quando eu aprendi que, sim, eu podia me salvar sozinha.
Comparamos nossas vidas e, mesmo assim, não tenho pena de ninguém.
"Esse negócio de romance, romance romântico mesmo, eu não gosto disso. Você sofre, e fica pensando na pessoa, aquela coisa, e aí você não funciona mais direito. [...] E sempre acaba, sempre acaba. [...] Eu prefiro quando é assim: 'ah, o que que você vai fazer hoje? posso ir com você?' ou então 'não, não tô a fim de ir com você'. [...] Porque senão fica aquela coisa: 'ah, vamos sair hoje?', 'não', 'por quê?', 'porque não', 'mas por que não?'. Aí entra na briga, o ciúme, a pressão. [...] Não, amor verdadeiro não tem isso. [...] Não é bobagem."

8 de out de 2011

do salão

Depois de passar o dia conversando, ou rindo, ou ouvindo falas (e nomes pra lá de fantásticos como Sammer Maravilha), e correndo com notícias, o silêncio e a calmaria de chegar sozinha em um apartamento vazio ocupam todo o espaço possível, de uma forma absurda. É um contraste expressivo, e duas coisas totalmente opostas. Tipo branco e preto. Mas eu posso viver assim, afinal.

7 de out de 2011

série

Tem coisas que me incomodam, por certo que tem. Eu não sei se são motivos reais, uma vez que podem ser até fúteis, e a questão é: o simples fato de me incomodarem não os torna dignos do status de 'motivos de incomodação'? Às vezes eu acho que sim. Nas outras eu tenho certeza que não. E em outras ainda eu tento entender por que me incomodo com eles, dado que a) metade não são coisas mutáveis, não por mim, e b) metade são coisas que um ser humano pode resolver contanto que se empenhe. Então por que eu não é outra questão que eu não sei responder. O caso é que, sempre que eu paro pra pensar, eu queria poder sentir mais entusiasmo com jornalismo. Eu não sinto. Então eu paro de pensar ou ignoro a minha vontade de entusiasmo ou finjo que sinto. O que eu faria se largasse? Arquitetura? Eu não sei. Eu simplesmente não cogito largar só pelo fato de ter começado. Mas e depois? E até lá? E agora?

E outra coisa é solidão. Eu não divido apartamento, nunca daria certo. Pela minha natureza fechada, pela minha necessidade de privacidade e de ficar sozinha, por mais paradoxal que seja. Não tem como entender. Possivelmente seria uma maneira de mudar, morar com alguém, mas eu não arriscaria a minha paz, que por hora é das poucas coisas concretas que eu tenho. É solidão ou carência? E até que ponto uma não é a mesma que a outra? O que diferencia uma pessoa solitária de uma pessoa carente? Eu não faço a menor idéia, mas digo que sou solitária porque parece menos defeituoso que ser carente e porque de fato não me considero carente. Carência, em alguns casos, me parece uma conseqüência da solidão que aparece de vez em quando. É uma questão de saber fechar a porta. Mas solidão é quase um estado de alma. Se não for de fato.

Às vezes eu penso em terapia. Mas só pensar em pagar alguém pra me ouvir choramingar já me dá desgosto. Pelo fato de ser o ápice da coisa toda, pelo dinheiro que eu não tenho pra gastar com isso e porque certamente deve ter quem precise ou valorize de verdade, e eu não vou tirar nem uma horinha dessas pessoas. Mas é uma coisa incógnita pra mim. Eu consultei uma psicóloga em dois momentos da minha vida. Perto dos oito, quando eu mudei de quarto e passei a ter ainda mais dificuldade pra dormir. (Cheguei a dizer uma vez, no alto da minha inocência, que quando anoitecia aqui eu queria poder ir pro Japão. "Por quê?", pergunta papai. "Pra não precisar dormir".) Por medo ou por sei lá que bobagem, mas o fato é que eu gostava dos joguinhos e dos livros da sala dela e só. E mais tarde, na separação dos meus pais. O que não teve o menor sentido, porque eu não vi o menor problema na separação. Pelo contrário. Ou seja.

Eu queria viajar.


6 de out de 2011

toda a poesia de kleiton e kledir

suspirando em falsete
coisas que eu nem sei contar

depois do terceiro ou quarto copo
tudo que vier eu topo
tudo que vier vem bem

vou ficar até o fim do dia
decorando tua geografia



Tava lá entrevistando a pró-reitora de qualquer coisa e ela falou sobre quando um professor consegue entusiasmar um aluno, e como isso é melhor do que qualquer método de ensino que possa existir. Três nomes me vieram na hora. E mais alguns depois. Triste é conseguir contar esses caras nos dedos.
Mas tudo bem, porque eles valem pelo resto.

3 de out de 2011

flor de canudinho

Meu pai - ou minha vó, não tenho bem certeza - me trouxe de uma viagem a algum país da América do Sul (Chile? Argentina? não sei) uma caixinha de madeira com detalhes em dourado onde eu guardo uma série de coisas, entre cartas, desenhos e objetos com algum significado. Ou só porque são legais. Fica no meu quarto em Canela. E dentro dela tem uma flor feita de canudinho.

Uma juíza aqui de Porto Alegre tem uma casa de veraneio lá, quase em frente à nossa. Ela tem três filhos: o caçula pouco mais novo que o meu irmão, uma guria da minha idade e um outro bem mais velho, de, sei lá, uns trinta e poucos, que é biólogo/botânico. E um dia, há não tenho idéia de quantos anos, possivelmente uns quatro, cinco, em um feriado qualquer, decidimos sair todos pra almoçar fora e caminhar pelo parque das sequóias, um dos mais bonitos que eu conheço em termos de vegetação. Incontáveis árvores. Minha natureza não é lá muito social e eu não ia, nesse tal almoço-passeio. Mas fui. E me surpreendeu, na época e até hoje, o quanto eu conversei com o cara. Sobre árvores, sobre as espécies, sobre Canela, sobre Porto Alegre, sobre faculdade, sobre um bando de coisas, enfim. E lá pelas tantas ele começou a dobrar um canudinho vermelho que ninguém havia usado. E eu fiquei olhando sair dali uma florzinha que depois ganhei de presente.

Não sou capaz de lembrar o nome do cara, nem o rosto dele, nem quase nada. Mas ficaram a flor e a aura que ela carrega e que me leva direto de volta àquele dia. Possivelmente um começo de primavera, como agora.

Tudo naquela caixa traz alguma coisa, alguma sensação. De certa forma, como se as memórias fossem táteis. E talvez seja esse o propósito de se guardar certas coisas, afinal: tornar tátil, palpável, o que a memória sozinha não conseguiria reter por completo. Provas de pequenas ou grandes histórias, fragmentos do que um dia foi tristeza ou alegria, partes soltas de vidas que a gente pode guardar e revisitar a hora que sentir vontade.

Ninguém nunca perguntou o que tem lá, na caixa. Mas, se um dia vierem a perguntar, a resposta já tomou corpo. Lá tem os pedaços de passado que eu posso carregar.