Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia
31 de mar. de 2012
15 de mar. de 2012
o sorriso
Tinha uma expressão séria e tendia à depressão. Sessões semanais de terapia. Era irônico, calado, e pouco o viam sorrir. Mas é esse o encanto das pessoas assim: em um mundo de emoções cada vez mais forjadas, quando elas sorriem, enchem qualquer lugar com um sorriso de verdade.
12 de mar. de 2012
interminável
Enquanto não chove e não se sabe se se está feliz ou se é apenas a vontade de se mostrar feliz. Para que vejam e tenham certeza do progresso -
mas ninguém vê. E mesmo que vissem - por que seria bom? Talvez nem fosse.
Possivelmente. Provavelmente. Certamente. Infelizmente. Sem notar ele não é
notado, mas de quando em quando. De quando em quando, como se forças invisíveis
e desconhecidas levassem minhas mãos até lá. Maldita disponibilidade de
informações. Maldita presença. E a existência ignorada pelo egoísmo de quem só
é capaz de ver as próprias mágoas e sentir o peso dos próprios ombros.
Pimenta nos olhos dos outros, refresco. Contanto que meu caminho esteja livre,
porém. Felizes os que não vêem. Mas é uma questão de tempo, e a dor é
relativa. Quando vê, não é mais dor, mas uma marca qualquer do que um dia já
doeu. De dilacerar, rasgar, afundar. E já foi. Que se prender costuma ser uma
espécie barata de retrocesso. O discurso vazio e a falta de legitimidade de
quem aprecia a retórica vitimista. Quem dera nós pudéssemos. Fazer essas coisas
que vêm da imaginação, provar das sensações novas que a vida por vezes oferece,
dançar como se o outro fosse a sala vazia, trocar conhaques e carinhos, cigarros
e cafés. Mas há muito que ser ainda para que um dia nossas vontades sejam
verdades. Há muito que ler para que um dia se possa falar. Os mapas que deveriam guiar fazem mais se
perder, e em meio a encruzilhadas e obstruções a vida já não decide por onde
seguir. Os monstros do dia acordam a cada esquecimento e os da noite nunca
dormem. Entre xícaras matutinas de café amargo e almoços que ficam para trás, muitas forças se esvaem para reacender no meio de palavras sobre cujo significado
pouco se sabe. O calor consome. A mistura de signos e motivos dá à luz criações
suspeitas. E do que se diz disposição sobram migalhas ao fim do dia. Restos de
um ímpeto qualquer de qualquer coisa. Vestígios do que já foi ou do que uma vez
poderia ser mas já não é. Os gracejos da sucessão dos dias e das falhas
querendo ofuscar os acertos. Não, não. Só por hoje. Bons momentos. Cedo ou
tarde - em cinco ou cinquenta anos. Alguma coisa há de acontecer. O curso muda. É tempo de escrever. E mesmo
amanhã nós já não somos mais nós.
26 de fev. de 2012
falta
Eu nem sei o que dizer. Quando tudo ao redor e mesmo a sucessão dos acontecimentos parecem conspirar a favor, mas são atropelados pela dinâmica de uma mente em redemoinho, que eternamente vai e volta em círculos sem jamais sair do lugar. Ou pelo sentir que não quer morrer e se mantém às voltas, rondando, para atacar quando menos se espera, quando menos se quer e quando menos se precisa. As palavras me faltam e meus olhos são só lágrimas murchas, que fazem força para sair sem nem saber a que vêm. Não sou capaz de saber o que pensar quando não sou capaz de saber o que eu sinto. Hoje, esses dias em que definir qualquer coisa é crime. Nada nem ninguém será rotulado, estereotipado ou generalizado. Quando todas as formas de amar e sentir descem pelo mesmo funil e se tornam a mesma coisa. Farinha do mesmo saco. Eu não sei no que eu acredito. Quando sou louca e esquisita por não jogar com a maioria. Quando tudo se resume a nada. Minha casa sem vozes e o sono que eu queria dormir mais e mais a cada dia à medida que março se anuncia. Meu asco, minha raiva, minha tristeza, meu tédio, minha risada e minhas saudades, que vêm no plural, nunca são uma só. E mergulhar em qualquer coisa só para não estar na superfície. A solidão que afasta do mundo, das pessoas próximas e distantes, que faz o que oceano e continente não fariam melhor. Não se leva nada. Ganhar ou perder. Imaginar um lugar que não existe, um lugar bom. Não é ingratidão, é só a incapacidade de ser feliz de longe.
24 de fev. de 2012
anuviez
Meu atraso constante para as coisas que me tocam o coração em contraste com minha pontualidade impecável para aquelas só fazem afundar meu espírito ou o que resta dele. Essa palavra esquiva, que eu não sei qual é meu espírito. Canelense, colorado, caseiro? Inquieto, indeciso, inseguro? O que passa por cima de mim mesma e soterra minha vontade. De quê? Esvaziar a garrafa, esquecer para depois lembrar. Enquanto os dias seguem correndo e as surpresas chegam com cara de cansadas e hora marcada. O sentido de ficar esperando para ser encontrado ao mesmo tempo em que a covardia bem ao lado sorri serena o seu sorriso de vitória. Andar na rua, decorar pedras soltas e desenhos de calçadas em caminhos repetidos milimetricamente à exaustão. Verão não existe para inovar, verão é o esquecimento de tudo diante do mar ou no conforto da rede na varanda de casa. Essas casas de praia, com suas áreas repletas de redes e cadeiras e suas cozinhas acopladas à sala que só podem ser o ápice do aconchego de qualquer época. Nada pode ser mais bonito ou acolhedor que uma autêntica casa de praia. E até que cheguem as manhãs, tardes e noites de outono a capacidade de qualquer coisa descansa sob o calor, a preguiça e o desejo, enfim, de que os dias corram. Bonito seria lembrar para depois esquecer e então seguir sorrindo ao sabor das brisas da metrópole ou da serra. Sabor de satisfação, preenchendo o corpo fatigado de frustração. Pelo rigor da sorte ou culpa própria, sangue alemão abrasileirado que se desencontra em qualquer parte. Das mortes, a sobra dos silêncios e espaços vazios. Não há saída ao longo do tempo, de válvulas de escape esgotadas, pedindo também para escapar. Ao fugidio, ao efêmero, ao artificial e oco. Nas sombras das árvores do Bom Fim.
22 de fev. de 2012
a puppet on a string
Me inspiram os que escrevem, os que se separam de mim por um abismo e os que são como eu. Nas temperaturas de Porto Alegre eu só posso lamentar o frio que insiste em todo ano se demorar. Saudade serrana que eu sempre vou carregar, não importa o quão perto. E o que eu vivo aqui segue ficando para trás, junto às coisas que eu trouxe de lá e o que eu nem quero mais saber. Minha ambição carente de objeto ambicionado. Qual a explicação para a dificuldade de se dizer não? Não para os outros, e para os outros também, mas para si mesmo e para as vontades descabidas e já gastas que às vezes esquecem de ficar também para trás com todo o resto. Como se assinar a sentença de um não fosse me roubar algo há muito já ausente, inexistente quem diz. Como se fosse definitivo - e nada na vida que não a morte pode ser definitivo. A gente sabe e esquece. A gente sabe e ignora. A gente sabe e insiste nos erros repetidos, ano depois de ano, música depois de música, fim depois de fim. E vem a vida brincar como se tudo fosse nada e nada valessem os esforços, vãos, vãos, vãos. Quem tu pensa que é pra me desafiar? Se der certo agora, eu te pego na curva depois. Pode esperar, que as cordas da tua felicidade são meus dedos que controlam e eu solto ou arrebento conforme me convier. Vai lá, hoje a noite é tua, amanhã e nos dias e meses que se seguirem nós acertamos a conta. Vai lá, vai. Cansei de ti por hoje.
30 de jan. de 2012
pra ser
Como se o mundo fosse infinito. E o mar é tão grande logo ali que é mesmo como se fosse. E bastasse nadar um pouco para trocar de continente. Eu, sempre assim, disfarçando o que eu não sei nomear colocando a culpa no que jamais me causaria sofrimento. Não hoje. Mas o que é hoje senão um espaço de tempo tão impalpável quanto ontem ou amanhã. Mais um dia, mais uma vez despertador, de novo não ver nada de novo. Honestamente, do fundo da minha alma, com tudo o que eu sou capaz de pensar e formular, eu não sei. E porque me pergunto todos os dias, todos os dias sei ainda menos. O meu problema, que vive comigo, há um tempo cuja precisão me escapa, mas que eu não sou capaz de definir. Talvez porque dar nome implique saber a solução, talvez porque eu simplesmente não saiba. Por que a vida não me chega leve, por que os dias não me passam suaves, por que estar longe me dói tanto que às vezes eu não sou capaz de nada senão chorar. De olhos apertados, querendo acordar e me ver livre. Tomar café com a mãe, ver a novela das seis, não se lembrar da vida por enquanto. Sentir a dor antes de ela chegar. Querer estar perto antes de estar longe. Pular ou voltar dez anos na vida - qualquer dia menos hoje, qualquer tempo menos esse. Como se a vida fosse infinita. Era pra ser uma coisa boa.
25 de jan. de 2012
whatever planet
Kurt Cobain said he always felt like he was an alien dropped off on this planet by mistake. And I definitely can relate to that. So often I feel like I can't stand people and want to go live in a cave somewhere. But then I also really care about people, too, you know? And crave human contact...so it's confusing. I do want to be a part of the world. But sometimes I don't know how. Or, yeah, I feel like an alien. But, as I've gotten older, and stayed sober longer, it has definitely gotten better. Like, slowly I've figured out who I am and what I want and don't want and I'm able to be more true to myself. It's annoying, I know, that I always say this, but the truth is, I just have to hold on. If I hold on through the bad times and believe, it will, ultimately, always, get better. I will find my place and my meaning. It will come. Not through other people or substances or anything. It will come from within me.
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