20 de abr. de 2012

Me pergunto se há um caminho diferente de ser para sempre a esquecida. Meus substantivos estão acabando e meus verbos estão estanques

9 de abr. de 2012

5 de abr. de 2012

a beleza das canções e a beleza das palavras
a beleza do ritmo
voz sussurada
e olhos pesados numa manhã de inverno

31 de mar. de 2012

Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia

15 de mar. de 2012

o sorriso

Tinha uma expressão séria e tendia à depressão. Sessões semanais de terapia. Era irônico, calado, e pouco o viam sorrir. Mas é esse o encanto das pessoas assim: em um mundo de emoções cada vez mais forjadas, quando elas sorriem, enchem qualquer lugar com um sorriso de verdade.

12 de mar. de 2012

interminável

Enquanto não chove e não se sabe se se está feliz ou se é apenas a vontade de se mostrar feliz. Para que vejam e tenham certeza do progresso - mas ninguém vê. E mesmo que vissem - por que seria bom? Talvez nem fosse. Possivelmente. Provavelmente. Certamente. Infelizmente. Sem notar ele não é notado, mas de quando em quando. De quando em quando, como se forças invisíveis e desconhecidas levassem minhas mãos até lá. Maldita disponibilidade de informações. Maldita presença. E a existência ignorada pelo egoísmo de quem só é capaz de ver as próprias mágoas e sentir o peso dos próprios ombros. Pimenta nos olhos dos outros, refresco. Contanto que meu caminho esteja livre, porém. Felizes os que não vêem. Mas é uma questão de tempo, e a dor é relativa. Quando vê, não é mais dor, mas uma marca qualquer do que um dia já doeu. De dilacerar, rasgar, afundar. E já foi. Que se prender costuma ser uma espécie barata de retrocesso. O discurso vazio e a falta de legitimidade de quem aprecia a retórica vitimista. Quem dera nós pudéssemos. Fazer essas coisas que vêm da imaginação, provar das sensações novas que a vida por vezes oferece, dançar como se o outro fosse a sala vazia, trocar conhaques e carinhos, cigarros e cafés. Mas há muito que ser ainda para que um dia nossas vontades sejam verdades. Há muito que ler para que um dia se possa falar.  Os mapas que deveriam guiar fazem mais se perder, e em meio a encruzilhadas e obstruções a vida já não decide por onde seguir. Os monstros do dia acordam a cada esquecimento e os da noite nunca dormem. Entre xícaras matutinas de café amargo e almoços que ficam para trás, muitas forças se esvaem para reacender no meio de palavras sobre cujo significado pouco se sabe. O calor consome. A mistura de signos e motivos dá à luz criações suspeitas. E do que se diz disposição sobram migalhas ao fim do dia. Restos de um ímpeto qualquer de qualquer coisa. Vestígios do que já foi ou do que uma vez poderia ser mas já não é. Os gracejos da sucessão dos dias e das falhas querendo ofuscar os acertos. Não, não. Só por hoje. Bons momentos. Cedo ou tarde - em cinco ou cinquenta anos. Alguma coisa há de acontecer. O curso muda. É tempo de escrever. E mesmo amanhã nós já não somos mais nós.

26 de fev. de 2012

falta

Eu nem sei o que dizer. Quando tudo ao redor e mesmo a sucessão dos acontecimentos parecem conspirar a favor, mas são atropelados pela dinâmica de uma mente em redemoinho, que eternamente vai e volta em círculos sem jamais sair do lugar. Ou pelo sentir que não quer morrer e se mantém às voltas, rondando, para atacar quando menos se espera, quando menos se quer e quando menos se precisa. As palavras me faltam e meus olhos são só lágrimas murchas, que fazem força para sair sem nem saber a que vêm. Não sou capaz de saber o que pensar quando não sou capaz de saber o que eu sinto. Hoje, esses dias em que definir qualquer coisa é crime. Nada nem ninguém será rotulado, estereotipado ou generalizado. Quando todas as formas de amar e sentir descem pelo mesmo funil e se tornam a mesma coisa. Farinha do mesmo saco. Eu não sei no que eu acredito. Quando sou louca e esquisita por não jogar com a maioria. Quando tudo se resume a nada. Minha casa sem vozes e o sono que eu queria dormir mais e mais a cada dia à medida que março se anuncia. Meu asco, minha raiva, minha tristeza, meu tédio, minha risada e minhas saudades, que vêm no plural, nunca são uma só. E mergulhar em qualquer coisa só para não estar na superfície. A solidão que afasta do mundo, das pessoas próximas e distantes, que faz o que oceano e continente não fariam melhor. Não se leva nada. Ganhar ou perder. Imaginar um lugar que não existe, um lugar bom. Não é ingratidão, é só a incapacidade de ser feliz de longe.

24 de fev. de 2012

anuviez

Meu atraso constante para as coisas que me tocam o coração em contraste com minha pontualidade impecável para aquelas só fazem afundar meu espírito ou o que resta dele. Essa palavra esquiva, que eu não sei qual é meu espírito. Canelense, colorado, caseiro? Inquieto, indeciso, inseguro? O que passa por cima de mim mesma e soterra minha vontade. De quê? Esvaziar a garrafa, esquecer para depois lembrar. Enquanto os dias seguem correndo e as surpresas chegam com cara de cansadas e hora marcada. O sentido de ficar esperando para ser encontrado ao mesmo tempo em que a covardia bem ao lado sorri serena o seu sorriso de vitória. Andar na rua, decorar pedras soltas e desenhos de calçadas em caminhos repetidos milimetricamente à exaustão. Verão não existe para inovar, verão é o esquecimento de tudo diante do mar ou no conforto da rede na varanda de casa. Essas casas de praia, com suas áreas repletas de redes e cadeiras e suas cozinhas acopladas à sala que só podem ser o ápice do aconchego de qualquer época. Nada pode ser mais bonito ou acolhedor que uma autêntica casa de praia. E até que cheguem as manhãs, tardes e noites de outono a capacidade de qualquer coisa descansa sob o calor, a preguiça e o desejo, enfim, de que os dias corram. Bonito seria lembrar para depois esquecer e então seguir sorrindo ao sabor das brisas da metrópole ou da serra. Sabor de satisfação, preenchendo o corpo fatigado de frustração. Pelo rigor da sorte ou culpa própria, sangue alemão abrasileirado que se desencontra em qualquer parte. Das mortes, a sobra dos silêncios e espaços vazios. Não há saída ao longo do tempo, de válvulas de escape esgotadas, pedindo também para escapar. Ao fugidio, ao efêmero, ao artificial e oco. Nas sombras das árvores do Bom Fim.