18 de fev. de 2014

johnny



Johnny, de Johnny Bravo, porque os nomes dos meus cachorros sempre vieram de personagens de desenhos animados. Bebê, lindo, dormia enrolado em abóboras quando filhote. O último, e para sempre aqui. 

17 de fev. de 2014

não são dias difíceis pelos sintomas em si, os de tpm. pelo menos por aqui. sensibilidade, irritabilidade, estresse, choro fácil, o que quer que seja - tell me about it, tiramos de letra. o irritante e quase insuportável é a total consciência de que nada disso tem um motivo real. em outras palavras, você sabe que está irritada ou chorando por absolutamente razão nenhuma, mas mesmo assim não consegue evitar. é a incapacidade de controle em estado puro, e é isso o que torna a coisa toda tão estressante. no resto do mês, eu decido se quero chorar de raiva e amaldiçoar o mundo ou respirar fundo e ignorar; nessa semana, eu não decido nada. tudo isso pra dizer que o simples exercício de divagar e teorizar pode amenizar sintomas de pequenos males. e essa sou eu fazendo terapia caseira individual.

16 de jan. de 2014

these words are not the truth
but don't hold it against me
cause I know you're lying, too
Eu tinha 15 anos quando ouvi On Fire pela primeira vez. Nessa época, eu tinha um amigo virtual com quem gastei dezenas e talvez até centenas de horas em madrugadas insones no msn. Nós nunca nos conhecemos pessoalmente, e eu não tenho medo de dizer que devo a ele muito do que sou hoje. Mais: eu quase tenho certeza: eu não seria a mesma pessoa. Em uma dessas conversas, cujos assuntos iam de comidas pra se fazer em fins de semana frios ao show dos Strokes ou as fotos que usávamos no perfil, nós falamos sobre O Clube dos Corações Solitários. Um dos livros mais adolescentes possíveis e que eu li, surpresa, no auge da adolescência. Foi nesse livro, no setlist do show da banda do protagonista, que eu conheci a música que hoje eu tatuei. E é engraçado perceber - enxergar - como uma coisa puxa outra e aqui estamos e eis o que somos. Minha tatuagem, feita essa semana, começou há oito anos, com uma amizade que só existiu porque há oito anos nós tínhamos blogs e flogs. Percebo o quanto esse amigo, esse enviado, como ele mesmo se descreveu certa vez, fez diferença nesse processo e tento me responder: e se? E se nós não tivéssemos nos conhecido? E se eu tivesse feito escolhas diferentes das que eu fiz? E se? Eu vejo como cheguei até aqui, o quanto coisas que aconteceram há quase uma década foram tão fundamentais, e imagino, como talvez seja inevitável imaginar, se tudo - toda a nossa vida e quem conhecemos e os encontros que temos e as coisas que dão certo e errado - é de fato uma sucessão de puro acaso. Às vezes é bom pensar que não.



30 de out. de 2013

Existe uma voz, que eu me habituei a chamar de vida, que o tempo todo soa na minha cabeça. "O que é isso, criatura? O que você está fazendo? Nem pense em abrir esse livro. Muito menos em escrever. Tem um artigo de ética te esperando. E um projeto de tcc. E um tcc. E todos aqueles outros trabalhos completamente pointless mas que precisam ser feitos. E o trabalho, né. Você tem que trabalhar. Seria ótimo terminar esse café e deitar no sofá pra ler um livro em vez de levantar e sair, ainda mais hoje, na chuva, mas não dá. Você não pode fazer isso." Essa é a vida, e ela costuma ser bem impertinente. Um pé no saco, em termos mais claros. Mas é a vida à qual de alguma forma eu me submeti e que exige de mim obrigações diárias que quase sempre eu gostaria de não ter. Não que seja de todo ruim, pode ser até gratificante. Mas às vezes eu imagino o que aconteceria se eu parasse de ouvir essa voz. Se eu parasse de fazer o que precisa ser feito simplesmente porque precisa ser feito e começasse a fazer o que eu tenho vontade de fazer, aonde isso me levaria.

1 de out. de 2013

sobre escrever

Até poucos anos, eu pensava em escrever como algo recente. Não sei bem quando me dei conta de que, na verdade, é algo que eu sempre fiz. Desde os diários infantis, das historinhas para preencher as páginas do "caderno grande", não recomendado (vai entender) pras crianças das séries iniciais. Demorou pra eu acordar. O que é engraçado: algo presente de uma forma tão natural e cotidiana que demora a ser percebido, como essência, como necessidade.

*

É difícil descrever a relação. Ou o que eu espero disso. É difícil imaginar escrever um livro tanto quanto é difícil negar que eu imagine. É difícil, sobretudo, ver. E talvez seja isso mesmo: difícil.

*

Tenho ouvido, com mais frequência do que poderia esperar, que esse é "o meu caminho". Como se a vida de uma pessoa se resumisse a um caminho. A um único caminho. Meu caminho é esse, logo deleta-se todo o resto. Eu gosto de ouvir, mas não sei até que ponto acredito ou não. Como essas pessoas me veem? O que elas veem? Com base no que elas chegam a essa conclusão? São perguntas sinceras, todas sem resposta.

*

Tem períodos em que eu escrevo todos os dias e outros em que eu passo semanas ou meses sem escrever uma palavra. Anoto ideias, fragmentos e frases em cadernos espalhados - um na bolsa, outro na cabeceira, outro na mesa da sala - mas é diferente. Eu preciso sentar, não importa onde, e abrir o notebook, não importa a hora, só pra escrever. Poucas coisas são mais familiares que a caixa de texto do blogger e o layout tosco de fundo preto. E as palavras, bem ou mal, estão ali. And by morning it is a mess or a masterpiece. Um mundo à parte do próprio mundo. Em tantos momentos. De horas e dias e pensamentos estruturados em narrativas. Porque de outra forma a vida seria mais pobre e mais solitária.

*

Eu escrevo a vida que eu quero. A vida que eu não vivo. Uma vida que é verdade porque é imaginada.

22 de mai. de 2013

essa foto mostra só um pedaço, um pedaço bem pequeno, do pátio da casa da minha vó, que agora é a casa do meu pai. à esquerda, onde a câmera limitada do celular não pegou, fica um dos pinheiros. também à esquerda, depois da cerca, tem uma lavoura, outra cerca e um terreno imenso onde ficam as vacas e os terneiros, eventualmente. quando criança, meus primos costumavam passar parte das férias de verão lá. eu ia junto. fazia minha própria mala, ainda que morasse na mesma cidade, atravessava canela e ia ficar com eles e meus avós. é difícil pensar em um lugar melhor e onde a gente pudesse se divertir mais do que uma casa com um pátio tão grande e tantos lugares pra brincar de esconde-esconde. meu vô não nos deixava ir além da lavoura, mas nós íamos mesmo assim. a gente gostava de correr e ver as fogueiras que meu vô fazia com as grimpas, naquele tempo ainda mais imensas do que hoje. na árvore grande no centro da foto ficava o nosso balanço, feito e pregado pelo vô. o tronco também servia de suporte pro alvo que a gente montava pra atirar com a espingarda velha dele. no inverno, eu e meu primo saíamos, devidamente agasalhados, cada um com uma sacolinha, pra ver quem trazia mais pinhões. a fumaça escapando da nossa chaminé e das chaminés de todas as casinhas ao redor e ao longe. não que a gente não tivesse um videogame na sala, mas nem mesmo nos dias de chuva ele chegava a ser usado. quando chovia, a gente tirava dos armários todos os jogos que cada um trazia de casa ou sujava as mangas das camisetas desenhando. minha vó fazia bolos, sobremesas e a melhor massa com galinha que eu já comi na vida - pra sempre. esse tempo não existe mais, como também o pátio e a casa dos meus avós já são outros. meus avós não estão mais lá. nem nós, nas férias. mas ainda hoje, mais de dez anos depois, eu não consigo pensar em um lugar melhor. ainda é lá que eu passo tantos domingos, ainda é lá que eu esqueço do resto do mundo e me deixo sorrir verdadeiramente. aconchego, é a palavra. o tipo de aconchego que só existe nas cidades pequenas, na casa dos avós.

22 de jan. de 2013

o gosto de sangue na minha boca

Não me lembro de muita gente falando do Aaron Swartz antes de 11 janeiro, quando ele foi encontrado enforcado no apartamento em Nova York. Ou, anos mais cedo, do Yoñlu, antes de ele se matar no banheiro de casa. Ou de outros tantos além deles. Mas de 12 de janeiro pra cá vêm de todos os lados os textos que falam sobre Aaron Swartz, de veículos reconhecidos ou independentes, de profissionais conhecidos ou de pessoas 'anônimas' no facebook que compartilham posts incessantemente. Na maioria dos textos que li, eles falam de "possível suicídio" e "provável suicídio", falam de "encerrar a própria vida" e "deixar este mundo". Entre os autores desses textos, poucos foram capazes de afirmar o suicídio. Sim, ele se matou. Mas são jornalistas, não podem afirmar sem provas. Mas ele se matou. E afora todas as questões envolvendo depressão, escolha pessoal, problemas judiciais e a injustiça de um sistema que caça e pune quem atua concretamente em prol da liberdade e do conhecimento, todos esses textos parecem dar o mesmo recado: você gênio da internet ou da música, você de sensibilidade ou inteligência extremas, você qualquer pessoa que sofre: você precisa morrer ou você precisa se matar para ser reconhecido. Mais do que isso: para ter reconhecida a dor que você carregou durante as décadas por que conseguiu viver. Como se estar vivo fosse um atestado de que a dor não é tão grande. Se você realmente sofresse, você se mataria. Todas as pessoas espalhadas pelo mundo para quem esse mesmo mundo dói tanto quanto doía para Aaron e Yoñlu e que por algum motivo não querem - ou simplesmente não conseguem - cometer suicídio. Elas não existem. Incógnitas entre os demais, porque por algum motivo não querem - ou simplesmente não conseguem - falar. Nós falamos com elas, passamos por elas na rua, não é nem difícil que convivamos com elas. Sem saber. A dor do mundo, a dor de viver, nunca vai ser verdadeiramente percebida por alguém que não tem a menor ideia do que é senti-la. Não importa quantos textos sejam escritos. A dor de quem sofre sem ser diagnosticado, que acaba sendo vista como uma fase, aquele momento ruim que vai passar. Não é tão sério assim. Se fosse, existiria um psicanalista, um antidepressivo ou uma corda no pescoço. Essa dor, que se manifesta com mais ou menos intensidade, com mais ou menos frequência, dependendo da pessoa e dependendo da vida dela, é invisível aos olhos do mundo. E se o mundo, a vida e as pessoas fossem justos, alguém como o Aaron não seria ameaçado com 35 anos de cadeia. Se o mundo fosse justo, as pessoas, todas elas, todos nós seríamos considerados pessoas e tratados como tal. Talvez, só talvez, se o mundo fosse só um pouco melhor e mais justo, nem Aaron nem Yoñlu nem tantos outros além deles precisariam sequer pensar em suicídio.

30 de out. de 2012

cartas

Lembro vagamente as últimas vezes em que escrevi e recebi uma carta. Pelo correio, com selo, escrita à mão e tudo mais que uma carta que se preze precisa ter. Eu e uma amiga, filha de uma amiga da minha mãe, a certa altura resolvemos nos corresponder por cartas. Ainda que fosse mais velha, ela aparentemente não via problema nem absurdo na situação e encontrava tempo para escrever cartas para uma criança sem muito mais o que fazer na época. E ela fazia coisas incríveis: usava papéis coloridos de todos os tipos, fazia desenhos, usava o próprio papel da carta dobrado de jeitos diferentes que eu amava como envelope, botava perfume e um ps pra que eu cheirasse a folha e por aí vai. Não foi à toa que a moça se tornou publicitária. E eu - eu não sou nada, só continuo escrevendo. Como já escrevia naquela época e sempre achei mais fácil expressar qualquer coisa por meio de palavras escritas. Quando um parente - tio, tia, vô, vó, algum primo - fazia aniversário, minha mãe provavelmente não passou longe de fazer ameaças ou chantagens para que eu ligasse. Telefone sempre me apavorou. No final do terceiro ano, foi por e-mail que eu resolvi dizer ao colega que anos antes havia sido meu primeiro namorado que ele era, afinal, uma pessoa de quem eu inevitavelmente sempre me lembraria e a quem eu desejava toda a felicidade que fosse possível. Ele respondeu o e-mail de um jeito lindamente amável e entre todo o resto chamou a atenção para o fato de que era eu que me dava bem com as palavras escritas, ele preferiria me dizer tudo aquilo pessoalmente. Não sei há quantos anos eu não uso o correio para nada. Quero dizer, há quantos anos eu não uso, porque as contas seguem chegando sem erro mês a mês. Pensar em cartas hoje soa anacrônico, como pensar em lavar as roupas no tanque porque antigamente não existiam máquinas de lavar. Por que enviar uma carta quando se pode enviar um e-mail ou jogar mais uma mensagem no facebook da pessoa? Mesmo os e-mails, quando não referentes a trabalho, faculdade, newsletter de qualquer coisa, parecem ter sido substancialmente abandonados. Quase como se escrever um e-mail com a única finalidade contar algo a alguém fosse uma interpelação, uma invasão, uma perturbação do tempo e da caixa de entrada alheia. Uma pressão de resposta que o outro não quer sofrer. As pessoas estão todas variavelmente conectadas umas às outras em redes sociais, podem falar e dividir o que sentirem vontade quando sentirem vontade e com quem sentirem vontade, mas, em maior ou menor medida, deixam de conversar. De gastar talvez uma hora para realmente dizer algo a alguém. Mas é claro que isso é uma generalização tosca que, além de tosca, pode estar completamente distorcida. É mais ainda uma impressão. Baseada em nada mais do que observação breve. O fato é que quando recebo um e-mail, um e-mail que não seja referente a trabalho, faculdade ou newsletter de qualquer coisa, eu me alegro como com poucas coisas na vida. Dependendo do caso, meu coração acelera nos segundos que passam antes de eu abrir para ler, numa mistura deliciosa de expectativa, curiosidade e vontade que pode ser decepcionada ou satisfeita mas não importa. Necessidade de contato e diálogo com o outro a que todo ser humano está fadado e que se manifesta diariamente mesmo em mim, que sou capaz de ficar dias inteiros sem pronunciar nada. Dever ser por isso que às vezes deixo a consciência de lado e escrevo para quem a bem da verdade eu não tenho mais nada a dizer. Porque isso é uma mentira: sempre vão existir coisas a serem ditas. A quem esteja interessado em ouvir e a quem não esteja. As palavras são veneno e antídoto.