26 de fev de 2012

falta

Eu nem sei o que dizer. Quando tudo ao redor e mesmo a sucessão dos acontecimentos parecem conspirar a favor, mas são atropelados pela dinâmica de uma mente em redemoinho, que eternamente vai e volta em círculos sem jamais sair do lugar. Ou pelo sentir que não quer morrer e se mantém às voltas, rondando, para atacar quando menos se espera, quando menos se quer e quando menos se precisa. As palavras me faltam e meus olhos são só lágrimas murchas, que fazem força para sair sem nem saber a que vêm. Não sou capaz de saber o que pensar quando não sou capaz de saber o que eu sinto. Hoje, esses dias em que definir qualquer coisa é crime. Nada nem ninguém será rotulado, estereotipado ou generalizado. Quando todas as formas de amar e sentir descem pelo mesmo funil e se tornam a mesma coisa. Farinha do mesmo saco. Eu não sei no que eu acredito. Quando sou louca e esquisita por não jogar com a maioria. Quando tudo se resume a nada. Minha casa sem vozes e o sono que eu queria dormir mais e mais a cada dia à medida que março se anuncia. Meu asco, minha raiva, minha tristeza, meu tédio, minha risada e minhas saudades, que vêm no plural, nunca são uma só. E mergulhar em qualquer coisa só para não estar na superfície. A solidão que afasta do mundo, das pessoas próximas e distantes, que faz o que oceano e continente não fariam melhor. Não se leva nada. Ganhar ou perder. Imaginar um lugar que não existe, um lugar bom. Não é ingratidão, é só a incapacidade de ser feliz de longe.

24 de fev de 2012

anuviez

Meu atraso constante para as coisas que me tocam o coração em contraste com minha pontualidade impecável para aquelas só fazem afundar meu espírito ou o que resta dele. Essa palavra esquiva, que eu não sei qual é meu espírito. Canelense, colorado, caseiro? Inquieto, indeciso, inseguro? O que passa por cima de mim mesma e soterra minha vontade. De quê? Esvaziar a garrafa, esquecer para depois lembrar. Enquanto os dias seguem correndo e as surpresas chegam com cara de cansadas e hora marcada. O sentido de ficar esperando para ser encontrado ao mesmo tempo em que a covardia bem ao lado sorri serena o seu sorriso de vitória. Andar na rua, decorar pedras soltas e desenhos de calçadas em caminhos repetidos milimetricamente à exaustão. Verão não existe para inovar, verão é o esquecimento de tudo diante do mar ou no conforto da rede na varanda de casa. Essas casas de praia, com suas áreas repletas de redes e cadeiras e suas cozinhas acopladas à sala que só podem ser o ápice do aconchego de qualquer época. Nada pode ser mais bonito ou acolhedor que uma autêntica casa de praia. E até que cheguem as manhãs, tardes e noites de outono a capacidade de qualquer coisa descansa sob o calor, a preguiça e o desejo, enfim, de que os dias corram. Bonito seria lembrar para depois esquecer e então seguir sorrindo ao sabor das brisas da metrópole ou da serra. Sabor de satisfação, preenchendo o corpo fatigado de frustração. Pelo rigor da sorte ou culpa própria, sangue alemão abrasileirado que se desencontra em qualquer parte. Das mortes, a sobra dos silêncios e espaços vazios. Não há saída ao longo do tempo, de válvulas de escape esgotadas, pedindo também para escapar. Ao fugidio, ao efêmero, ao artificial e oco. Nas sombras das árvores do Bom Fim.

22 de fev de 2012

a puppet on a string

Me inspiram os que escrevem, os que se separam de mim por um abismo e os que são como eu. Nas temperaturas de Porto Alegre eu só posso lamentar o frio que insiste em todo ano se demorar. Saudade serrana que eu sempre vou carregar, não importa o quão perto. E o que eu vivo aqui segue ficando para trás, junto às coisas que eu trouxe de lá e o que eu nem quero mais saber. Minha ambição carente de objeto ambicionado. Qual a explicação para a dificuldade de se dizer não? Não para  os outros, e para os outros também, mas para si mesmo e para as vontades descabidas e já gastas que às vezes esquecem de ficar também para trás com todo o resto. Como se assinar a sentença de um não fosse me roubar algo há muito já ausente, inexistente quem diz. Como se fosse definitivo - e nada na vida que não a morte pode ser definitivo. A gente sabe e esquece. A gente sabe e ignora. A gente sabe e insiste nos erros repetidos, ano depois de ano, música depois de música, fim depois de fim. E vem a vida brincar como se tudo fosse nada e nada valessem os esforços, vãos, vãos, vãos. Quem tu pensa que é pra me desafiar? Se der certo agora, eu te pego na curva depois. Pode esperar, que as cordas da tua felicidade são meus dedos que controlam e eu solto ou arrebento conforme me convier. Vai lá, hoje a noite é tua, amanhã e nos dias e meses que se seguirem nós acertamos a conta. Vai lá, vai. Cansei de ti por hoje.